Segurança clandestina ameaça a tranquilidade dos bairros (Bahia)

O que seria uma alternativa para se livrar do domínio de facções do tráfico e da ação de assaltantes virou um problema para comunidades de bairros populares de Salvador. Empresas clandestinas de segurança – a maioria sob o comando de policiais civis e militares – chegam a ameaçar moradores e comerciantes que se recusam a pagar pelo serviço.

A taxa mensal de proteção varia entre R$30 e R$80. Quem não paga ou denuncia o esquema corre o risco de ser alvo da ação de criminosos. As empresas de segurança clandestinas marcam com símbolos – estrelas, brasões e outros – as casas e estabelecimentos comerciais dos clientes, de forma a demonstrar quais imóveis estariam protegidos.

Estruturadas, elas são quase 1.500 contra apenas 82 empresas autorizadas pela Polícia Federal (PF) a prestar serviços de segurança privada na Bahia. Mas policiais acusados de comandar grupos, que em alguns casos se assemelham às milícias cariocas – conhecidas por controlar os serviços prestados em favelas -, estão na mira da Corregedoria da Secretaria de Segurança Pública (SSP- BA) e do Ministério Público Estadual (MPE).

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Locais que estariam sendo protegidos são identificados


Proprietária de uma lanchonete na Praça da Revolução, em Periperi (subúrbio ferroviário), uma comerciante, que não quis se identificar com medo de represálias, conta seu drama vivido há cerca de um ano. Segundo ela, um tenente da Polícia Militar que comanda a segurança na localidade lhe exigiu R$30 por mês para tomar conta de seu estabelecimento.

Ao negar, foi ameaçada pelo policial. “Ele encostou no balcão e sussurrou em meu ouvido: ‘Se não pagar, a qualquer momento alguém pode invadir a lanchonete e fazer sei lá o que com a senhora’”,contou a dona da lanchonete.

Foram dias de angústia até ela relatar o ocorrido a um primo que conhecia o policial. “Se não fosse a ajuda, teria que pagar para garantir a minha vida e a dos meus filhos”, acredita. A comerciante contou ainda que os jovens contratados pelo policial como seguranças têm histórico de envolvimento com o crime. “Como se combate assaltos com pessoas que já eram acostumadas a invadir casas?”, questionou.

Em Plataforma, outro bairro do subúrbio, a situação não é diferente. Da rua principal ao final de linha, casas e lojas comerciais ostentam os selos da Apoio Patrimonial, empresa que, de acordo com moradores, é de propriedade de policiais militares.

No local há cerca de dois anos, a empresa clandestina é acusada de amedrontar moradores que se negam a sustentar o mercado ilegal de segurança privada. “Primeiro, eles impõem o serviço. Se você não aceita, na noite seguinte costumam forçar a fechadura da porta, quebrar as vidraças, simulando a atuação de bandidos para a gente aceitar o serviço. Isso já aconteceu comigo”, contou o comerciante J.D.S., 49 anos, que entrega R$30 por mês a um cobrador da empresa.

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Grupos ameaçam que se recusa a pagar a mensalidade

A dona de uma loja de artigos para festas infantis, que não quis se identificar por temer represálias, afirma que todo mês um rapaz vai buscar os R$50 referentes à vigilância do local por 24 horas . “Nunca vi ninguém aqui durante o dia. Fico aqui sozinha e se alguém tentar me assaltar vai levar tudo”, diz, indignada.

Ainda em Plataforma, uma outra empresa clandestina vem tirando o sono de algumas pessoas. Embora ainda em expansão, a Patrulha Noturna (que tem como símbolo uma mão fechada) já detém o domínio em algumas ruas e vielas do bairro, usando o mesmo modo de operação de outras empresas clandestinas.

Já a segurança na avenida principal do Vale das Pedrinhas é feita pela clandestina Anjos da Noite. De uma simples lanchonete aos mercados, passando pelas farmácias, lan houses e até um consultório dentário. A maioria dos estabelecimentos é vigiada pelo grupo há mais de cinco anos. “É verdade que os assaltos diminuíram, mas dizerque é correto pagar por um serviço que é obrigação do estado, não é”, afirma a dona de um salão de beleza.

Guerra entre organizações
Grupos concorrentes de vigilância ilegal deram início há dois anos a uma sangrenta disputa por territórios na região de Brotas. Em abril, dois irmãos foram assassinados e a mãe deles foi baleada, numa emboscada, na Avenida Dom João VI.

Elias de Souza Barbosa, 35, e o irmão Dércio Carlos de Souza Dórea, 30, morreram depois de serem fuzilados dentro de um Fiesta quando se aproximavam de sua residência, situada na Ladeira do Acupe. Já a mãe das vítimas, Creuza Elizabete Souza, foi baleada na mão direita. O filho de Dércio, de apenas 10 anos, que também estava dentro do carro, presenciou o pai e o tio serem assassinados, mas escapou ileso.

Em março do ano passado, Elias já havia sofrido um atentado no bairro do Stiep, onde foi atingido por nove tiros. Na época, parentes disseram acreditar que o crime estava relacionado a briga de Elias com um antigo sócio numa empresa de segurança.

Outro crime aconteceu em circunstâncias semelhantes na região: um homem encarregado da coleta do dinheiro para um dos grupos que atuam em Brotas foi assassinado pouco depois de estacionar o carro na garagem de sua casa, no bairro da Federação. Ele foi abordado por dois homens numa moto, que fugiram em disparada após o crime. Os investigadores da 7ª Delegacia (Rio Vermelho) apontaram como motivo do crime rixa por ponto de vigilância.

Empresas ilegais
As quatro instituições citadas na reportagem (Apoio Patrimonial, Patrulha Noturna, ALB Segurança e Anjos da Noite) não estão autorizadas a prestar serviços de segurança privada pela Polícia Federal. Isso é o que assegura a delegada Larissa Perdigão, chefe da Delegacia de Segurança Privada (Delesp).

“São empresas clandestinas, estando seus sócios e empregados a incidir na contravenção penal de exercício ilegal de profissão ou atividade, conforme Artigo 47 da Lei de Contravenções Penais”, afirmou a delegada federal. Larissa Perdigão informou ainda que a atividade de segurança privada somente pode ser praticada nos limites do estabelecimento protegido.

Nenhuma empresa de segurança é autorizada a prestar serviços em ruas ou logradouros públicos. “Essa função, a de policiamento ostensivo, pertence à Polícia Militar e não é lícita a cobrança de qualquer quantia ou taxa para que seja cumprida, uma vez que se trata de dever do Estado”, esclarece a delegada.

Segundo o delegado Nelson Gaspar, corregedor geral da Secretaria de Segurança Pública, policiais já foram denunciados à instituição e alguns chegaram a ser exonerados.

A reportagem solicitou – desde terça-feira – à Corregedoria Geral da SSP o número de policiais indiciados por trabalhar com segurança privada, mas até a noite de sexta, não teve resposta. As investigações estão sendo acompanhadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Criminais. De acordo com dados da Polícia Federal e do próprio Sindicato dos Vigilantes, a Bahia tem 30 mil vigilantes regulares.

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  1. cansado de ser enganado disse:

    eles fizerão as leis !!!!!

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